Como superar uma crise e evitar que vá de mal a pior?

Como superar uma crise e evitar que vá de mal a pior?

  1. A confiança entre familiares e amigos admite à-vontade no trato; mas faltar ao respeito é abusar da confiança. Concordam? Então, devemos praticar em família o mesmo trato delicado (de boa educação!) que praticamos com estranhos: «bom dia»; «se faz o favor»; «obrigado»; «com licença»…
  2. Acresce que esse trato constitui uma medida preventiva para que as relações pessoais não cheguem à rutura na hora da crise. Com efeito, a formalidade habitual permite que as pessoas se continuem a relacionar entre si nesse momento, não disfarçando a frieza do trato, mas sem agravarem a situação com comportamentos inapropriados. Constituem por isso um suporte para evitar que uma crise vá de mal a pior, isso enquanto.., enquanto não surge o momento oportuno para a reconciliação.
  3. E como é o gesto da reconciliação? Não se justifica que nos compliquemos: basta que surja a oportunidade de nos podermos sinceramente dizer algo como «mas… eu gosto de ti!», onde esse «mas» adversativo o diz tudo: diz que aconteceu o que aconteceu; que teria sido melhor que não tivesse acontecido; que haveria motivo para muita coisa, mas… «eu gosto de ti!».

A verdadeira reconciliação versus a sua pobre caricatura

A verdadeira reconciliação versus a sua pobre caricatura

  1. Se o erro é humano, qual é o espanto de termos que o corrigir? Creio que nenhum, mas isso de reparar danos custa, não é? E porque custa, é fácil que procuremos soluções mais «fáceis».
  2. Soluções aparentemente mais fáceis nas relações pessoais: não falar de certos assuntos e simular normalidade; ou arranjar «explicações» que reduzam a culpa a um mero mal-entendido. E pergunto: assim fica tudo bem? Mesmo bem? E isso é… reconciliação? Alguém perdoou alguém ou foi apenas adiada a sentença? Pode não haver um conflito ostensivo, mas há paz? Está sarada a relação?
  3. Há sentimentos de vergonha, orgulho, tristeza ou revolta que compreensivelmente obstruem a reconciliação. Será preciso dar espaço e tempo; pode-se precisar de ajuda; talvez não se alcance a reparação plena, mas não vale a pena enganarmo-nos: não há reparação autêntica onde falta autenticidade: autenticidade para se assumir e declarar a própria inocência ou culpa, assim como a mágoa ou a ofensa sentidas. Como? Num próximo texto abordaremos ainda este assunto, pois é certo que a verdadeira reparação não se improvisa.

Desafios da Fidelidade

Os desafios da fidelidade

  1. Definitivamente, a relação entre as pessoas não é estanque. Mudamos a cada dia, mês, ano e década que passa; mudamos todos, eu e os outros; muda o mundo que nos rodeia; e os factos que se sucedem mudam também o cenário das nossas relações. E, assim mudando, teria sentido reduzir a fidelidade à preservação de uma relação apenas por uma obstinada inércia? Alguém vê numa fidelidade assim o suporte da felicidade? Ou será o prenúncio do seu fim?
  2. Opostamente a esse imobilismo gerado pela resistência à mudança, a fidelidade é a capacidade criadora gerada pelo amor, com que nos renovamos, nos «reinventamos», de modo a continuarmos juntos nas constantes oscilações da vida. A fidelidade criadora é capaz, inclusive, de encontrar numa crise, pela via da reconciliação, uma oportunidade para fortalecer a relação.
  3. A contínua predisposição para nos renovarmos e para nos reconciliarmos todas as vezes em que seja preciso, são os dois desafios da fidelidade. Mas atenção aos equívocos sobre a reconciliação. Há quem confunda reconciliação com «fechar os olhos, tentar esquecer e deixar que o tempo resolva o que houver por resolver». Isso não é reconciliação; talvez disfarça, mas não resolve. Este tema merecerá que lhe dediquemos um próximo texto.

A fidelidade enquanto suporte da felicidade da vida familiar

A fidelidade enquanto suporte da felicidade da vida familiar

  1. Na sequência dos textos anteriores, imaginemos que a felicidade em família exigisse que fossemos sempre 100% sinceros e que estivéssemos sempre 100% disponíveis para atender respeitosamente aos outros. Alguém pode garantir algo assim?
  2. Confundir a felicidade familiar com uma relação imaculada é como desejar comprar um carro que não precise nunca de ir à oficina. Nem aquela família nem este carro existem. O mais que o stand nos oferece são anos de garantia, isto é, facilidade na reparação dos danos causados pelo inevitável desgaste das trepidações diárias. E entendo que também a fidelidade não consiste em nunca falhar, mas na constante disponibilidade para reparar os naturais abalos de cada dia.
  3. Este é o combate da fidelidade, que, compensando as derrotas dos outros dois combates (da mútua autenticidade e disponibilidade), alcança a confiança de que a família precisa para ser feliz. Mas, em que consiste esse combate da fidelidade? E qual é o segredo dessa fidelidade? Ficam estas perguntas para o próximo texto.

O combate da autenticidade exige também o combate da disponibilidade

O combate da autenticidade exige também o combate da disponibilidade

  1. A confiança, habitat da felicidade, vai de mão dada com a autenticidade, mas resistirá muito tempo a nossa autenticidade quando não nos sentimos respeitados? Duvido. Por isso, o combate da autenticidade exige também o combate da disponibilidade, que acolhe respeitosamente quem connosco se relaciona.
  2. Por sua vez, o gesto solidário de acolher hospitaleiramente o outro, encerra dois desafios. Primeiro obriga a «dar ouvido aos outros» (já viu como mina a confiança quem anda tão centrado em si e aferrado às suas ideias, que nem sequer escuta?). E o segundo, depois de ouvir, é o desafio de reprimir a tentação de controlar, manipular e de se apropriar do mundo interior que o outro teve a coragem e a simplicidade de revelar.
  3. Pode ser difícil esse equilíbrio entre o prudente distanciamento (que evite uma proximidade asfixiante) e o distanciamento ofensivo (de sobranceira indiferença) na vida de família. Especialmente quando falta o treino. Daí surge esta sugestão: avalie as suas conversações em família! Quando falam? Quem fala e de quê? Respeitam o silêncio dos outros? Dão-se tempo para cada um pensar por si? Como incentivam o diálogo dos mais reservados? Como gerem a voz de quem prepotentemente quer impor a razão de que se considera possuidor?

Confiança e autenticidade vão de mãos dadas

Confiança e autenticidade vão de mãos dadas

  1. Pensem comigo e digam se confiança e autenticidade não vão de mãos dadas: não é verdade que a desconfiança obstrói a autenticidade? E que, inversamente, a autenticidade gera confiança nas relações pessoais? Por isso, se o habitat da felicidade é a confiança, a autenticidade constitui o primeiro combate para sermos felizes na vida em família.
  2. O desafio é arriscar a apresentar-nos como somos e deixar transparecer o que realmente nos vai na alma, vencendo o receio de sermos mal compreendidos ou de desgostar os outros. Mas há mais: antes de abrir a minha intimidade (revelar o que eu penso, sinto e quero), existe o desafio de me assumir: o que é que eu verdadeiramente penso, sinto e quero? No fundo são dois desafios, de equivalente envergadura: o desafio de ser sincero com os outros, que deve ser precedido pelo desafio de ser sincero comigo próprio.
  3. Claro que autenticidade não significa despudor, não tem que ser ofensiva. Há maneiras e maneiras de vivermos a autenticidade. Uma boa prática é sabermos pedir um tempo para pensar quando ainda não temos uma opinião formada; e existem fórmulas delicadas de expressar as opiniões pessoais que devemos aprender.

Construir harmonia familiar

1º WORKSHOP «CONSTRUIR A HARMONIA FAMILIAR»

Fico muito grato pelas mensagens que recebi de alguns dos participantes neste Workshop do passado sábado 11 de maio na Biblioteca Municipal do Seixal. Alegra-me ter recebido o convite para repetir a sessão noutros locais e fiquei muito sensibilizado por ter dado alguma luz que, como disseram, ajudara a «regressar ao melhor trilho» nas «passagens com mais escuridão» da «caminhada da vida». Sendo assim, fico mais motivado para aceitar outros convites e realizar mais vezes este workhop. Obrigado a todos.

A confiança é espontânea ou cultiva-se?

A confiança é espontânea ou cultiva-se?

  1. Acredito que o habitat da felicidade é a confiança. O estado habitual de felicidade vive da confiança em sermos compreendidos, respeitados, confortados e impulsionados por quem nos rodeia, mesmo que discordem de nós. E qual é a génese da confiança? É espontânea ou cultiva-se?
  2. A confiança talvez possa surgir espontaneamente. Há pessoas naturalmente mais desconfiadas que outras, como há pessoas que inspiram logo mais confiança que outras. Seja como for, essa confiança inicial pode ser protegida e crescer com o tempo; como pode diminuir e morrer. E se não se sabe como é que se ganha a confiança, importa pelo menos saber bem como se perde.
  3. Confiar significa ter fé, acreditar no que não se vê. Seja espontaneamente ou não, quando confiamos em alguém estamos a passar um cheque em branco. Quem confia, arrisca, verdade? É natural, por isso, que a confiança venha a encontrar forças de bloqueio (receios? medos?) que deveremos combater. Será um combate amoroso, pois é o amor que nos convida a confiar, mas é um combate. E um combate que não cessa! Aliás, ao certo são três combates que tenciono descrever nos próximos textos.

Já pensaram no risco de confundir unidade com uniformidade familiar?

Já pensaram no risco de confundir unidade com uniformidade familiar?

  1. Todos valorizamos a unidade como condição de uma família feliz: unidade afetiva e efetiva, que dê segurança e conforto à relação. Mas já pensaram no risco de confundir unidade com uniformidade familiar?
  2. Na nossa sociedade livre e democrática, talvez ninguém negue o valor do pluralismo, mas na prática pode ser incómodo perceber que há em casa quem discorde de nós. Verdade? Devemos, pois, estar alerta para que a perceção dessa dissonância não seja fator de perturbação.
  3. Unidade na diversidade. Pense nas notas agudas e graves que compõem a melodia; pense nos dois ponteiros do relógio, nas duas asas da águia, nos remos do barqueiro. São imagens de como a diversidade enriquece a unidade. O oposto é a uniformidade que o tirano impõe, ainda que o silêncio dos outros (por submissão? por indiferença?) possa aparentar, falsamente, bonança e harmonia. Bem pode haver pessoas que, vivendo sob um mesmo teto, sejam tristes solitários. Que grande desafio é aprender a viver juntos! Espero explorar esta aprendizagem nos próximos textos.

Que entendes por ser feliz em família?

Que entendes por ser feliz em família?

  1. Este poder ser um motivo que perturbe a vida familiar: que entendes por ser feliz em família? Imagine que confundimos a felicidade com o gozo dos bons momentos (sempre fugazes!) de vitórias, diversão e prazer. Não será frustrante consumir a vida na insaciável busca de «coisas boas»? E como será a relação com quem nos rodeia na hora da contrariedade, perante os inevitáveis dissabores do dia-a-dia?
  2. O desafio é cultivar a felicidade plena, de serena paz interior, que gera bem-estar nos outros e resiste à dor e à tristeza dos momentos da tribulação. Mas como se alcança?
  3. Talvez pela via contemplativa, que nos permita saborear e agradecer quanto de bom e belo nos rodeia. Um exemplo ilustrativo: Porque os filhos dão trabalho e trazem preocupações, uma mãe pode passar toda a vida «ansiosa» pelo amanhã: «oxalá fosse já mais crescido…!», dirá. Mas também pode, pela contemplação, «saborear» cada momento presente: o mistério da gravidez, a ternura do bebé ao colo ou a aventura dos seus primeiros passos. E estão a ver como esta diferença afeta a felicidade da vida familiar? Aquela mãe gera ansiedade à sua volta; esta outra partilha o seu contentamento. Dá que pensar, verdade?