A verdadeira reconciliação versus a sua pobre caricatura

A verdadeira reconciliação versus a sua pobre caricatura

  1. Se o erro é humano, qual é o espanto de termos que o corrigir? Creio que nenhum, mas isso de reparar danos custa, não é? E porque custa, é fácil que procuremos soluções mais «fáceis».
  2. Soluções aparentemente mais fáceis nas relações pessoais: não falar de certos assuntos e simular normalidade; ou arranjar «explicações» que reduzam a culpa a um mero mal-entendido. E pergunto: assim fica tudo bem? Mesmo bem? E isso é… reconciliação? Alguém perdoou alguém ou foi apenas adiada a sentença? Pode não haver um conflito ostensivo, mas há paz? Está sarada a relação?
  3. Há sentimentos de vergonha, orgulho, tristeza ou revolta que compreensivelmente obstruem a reconciliação. Será preciso dar espaço e tempo; pode-se precisar de ajuda; talvez não se alcance a reparação plena, mas não vale a pena enganarmo-nos: não há reparação autêntica onde falta autenticidade: autenticidade para se assumir e declarar a própria inocência ou culpa, assim como a mágoa ou a ofensa sentidas. Como? Num próximo texto abordaremos ainda este assunto, pois é certo que a verdadeira reparação não se improvisa.

Desafios da Fidelidade

Os desafios da fidelidade

  1. Definitivamente, a relação entre as pessoas não é estanque. Mudamos a cada dia, mês, ano e década que passa; mudamos todos, eu e os outros; muda o mundo que nos rodeia; e os factos que se sucedem mudam também o cenário das nossas relações. E, assim mudando, teria sentido reduzir a fidelidade à preservação de uma relação apenas por uma obstinada inércia? Alguém vê numa fidelidade assim o suporte da felicidade? Ou será o prenúncio do seu fim?
  2. Opostamente a esse imobilismo gerado pela resistência à mudança, a fidelidade é a capacidade criadora gerada pelo amor, com que nos renovamos, nos «reinventamos», de modo a continuarmos juntos nas constantes oscilações da vida. A fidelidade criadora é capaz, inclusive, de encontrar numa crise, pela via da reconciliação, uma oportunidade para fortalecer a relação.
  3. A contínua predisposição para nos renovarmos e para nos reconciliarmos todas as vezes em que seja preciso, são os dois desafios da fidelidade. Mas atenção aos equívocos sobre a reconciliação. Há quem confunda reconciliação com «fechar os olhos, tentar esquecer e deixar que o tempo resolva o que houver por resolver». Isso não é reconciliação; talvez disfarça, mas não resolve. Este tema merecerá que lhe dediquemos um próximo texto.

A fidelidade enquanto suporte da felicidade da vida familiar

A fidelidade enquanto suporte da felicidade da vida familiar

  1. Na sequência dos textos anteriores, imaginemos que a felicidade em família exigisse que fossemos sempre 100% sinceros e que estivéssemos sempre 100% disponíveis para atender respeitosamente aos outros. Alguém pode garantir algo assim?
  2. Confundir a felicidade familiar com uma relação imaculada é como desejar comprar um carro que não precise nunca de ir à oficina. Nem aquela família nem este carro existem. O mais que o stand nos oferece são anos de garantia, isto é, facilidade na reparação dos danos causados pelo inevitável desgaste das trepidações diárias. E entendo que também a fidelidade não consiste em nunca falhar, mas na constante disponibilidade para reparar os naturais abalos de cada dia.
  3. Este é o combate da fidelidade, que, compensando as derrotas dos outros dois combates (da mútua autenticidade e disponibilidade), alcança a confiança de que a família precisa para ser feliz. Mas, em que consiste esse combate da fidelidade? E qual é o segredo dessa fidelidade? Ficam estas perguntas para o próximo texto.